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A Segunda Revolta da Vacina

Por Almir Pazzianotto Pinto



Em artigo anterior, relatei a primeira revolta da vacina, em novembro de 1904, contra medidas de vacinação adotadas pelo médico Oswaldo Cruz, durante o governo do presidente Rodrigues Alves.


Passado mais de um século, o Brasil se depara com a segunda rebelião. Desta vez, porém, fomentada e conduzida pelo governo do presidente Jair Bolsonaro.


A pandemia do coronavírus não tem como vetor nova espécie de mosquito. Trata-se de vírus invisível e pouco conhecido, cujo combate mobiliza centenas de renomados infectologistas nacionais e internacionais e dezenas de laboratórios chineses, ingleses, russos, norte-americanos, alemães, brasileiros. A busca incansável de vacina eficaz é objeto de notícias ininterruptas da mídia, no difícil esforço de conservar a humanidade otimista e informada.


Sempre existirão espíritos embrutecidos que se recusam a aceitar a ciência. Desde tempos imemoriais o homem teme a morte e o desconhecido. Mercadores de ilusões, curandeiros, apóstolos, charlatões e xamãs, fazem da fraqueza de espírito de pessoas ingênuas fácil meio de vida. Dão passes, simulam cirurgias, exorcizam demônios e prescrevem garrafadas. Um dos últimos foi João de Deus, frequentado por pessoas de todas as classes, até ser denunciado por assédio sexual, preso e condenado pela Justiça.


Era de se esperar que a solução pela vacina encontrasse resistência. Surpreende, porém, o fato de que seja estimulada pelo Palácio do Planalto. Do general Eduardo Pazuello, improvisado como ministro da Saúde, pouco se pode esperar. Fiel aos princípios da hierarquia e disciplina não ousa discordar do presidente Jair Bolsonaro. Apregoada por S. Exa. como milagrosa, a cloroquina passou a integrar o folclore da medicina nacional.


Nada poderia acontecer de pior do que a politização da pandemia. Caso semelhante ocorreu nos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump dá reiteradas demonstrações de arrogância mesmo após ser derrotado por Joe Biden, que insiste em ignorar.


Preservo-me em estado de quase completo isolamento desde março. Sou disciplinado. Acato as determinações das autoridades da saúde do município para não me contaminar e não me transformar em agente contaminador. Deixo o apartamento apenas se necessário. Não viajo, não saio a passeio, não vou a restaurante. Tudo o que é possível adquiro por aplicativos. Observo, com imensa preocupação, o avanço da covid-19. Alguns amigos faleceram. Outros se restabeleceram após semanas de internação e de muito sofrimento.


Afinal, o que pretende o presidente Jair Bolsonaro ao dar demonstrações de imprudência? A proteção mais elementar e ao alcance de todos, consiste no uso de máscara, que se recusa a fazer. Faz-se fotografar em público, com os olhos voltados para as eleições de 2022. O coronavírus matou mais de 180 mil pessoas, o equivalente a cerca de 75% dos efetivos das Forças Armadas ou à população de São Caetano do Sul.


Vacina é medicamento e, como medicamento, não é infalível e pode gerar efeitos colaterais. A ciência tenta alcançar a máxima eficiência. Sabe, porém, que não dispõe de tempo e que o ótimo é inimigo do bom. Os resultados dependerão, em boa parte, da idade e das condições de saúde dos vacinados.


No primeiro trimestre do próximo ano começaremos a conhecer os resultados da pretendida vacinação em massa. Haverá frascos, seringas e aplicadores na quantidade necessária? A logística da distribuição funcionará?

A nós, pobres mortais, somente resta esperar.


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Almir Pazzianotto Pinto é Advogado. Foi Ministro do Trabalho e presidente do Tribunal Superior do Trabalho. Autor de A Falsa República. Presidente de honra da APDT - Academia Paulista de Direito do Trabalho.

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Os artigos assinados e notícias reproduzidas com respectivas fontes não representam posições da Academia Paulista de Direito do Trabalho, refletindo a diversidade de visões relevantes abrangidas pelo tema e pela APDT.

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