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Coragem: olhe no espelho

Por Regina Duarte - 27/04/2020


Machado de Assis, em “O Espelho”[1], conta a história de um tal Sr. Jacobina que não gostava de discussão. Sobre a personagem, relata que sempre ficava calado e que, na oportunidade, estava ali reunido com mais quatro senhores, que resolviam, amigavelmente, os mais árduos problemas do universo. Machado afirma que Jacobina defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão era a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial.

Desafiado por um dos presentes, sobre o tema de que estavam a tratar, Jacobina resolveu romper o silêncio e lhes contar um caso de sua vida. Quem sabe poderia elucidar as dúvidas que a conversa dos quatro havia suscitado.

- Cada criatura humana traz duas almas dentro de si – foi assim que Jacobina iniciou a narrativa. Uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, que um simples botão de camisa pode ser a alma exterior de uma pessoa. (...) Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência.

Tudo para explicar que, aos vinte e cinco anos, fora nomeado alferes da Guarda Nacional, para alegria de sua humilde família. E, ao ser obrigado a visitar uma tia, que morava a muitas léguas de distância, em sítio escuso e solitário, viu-se, do dia para a noite, só, em casa de sua tia. Ela precisou viajar, deixando-o ali sem ninguém; até os escravos fugiram.

O isolamento, a que Jacobina não havia se submetido antes, o consumiu. Desde sua chegada ao sítio havia sido reverenciado em exagero pela tia. Perdeu-se, o pobre, na ausência da tia, sem sua alma exterior, ali configurada pelos rapapés e mesuras que até então lhe foram dirigidos na condição de “senhor alferes”. A primeira alma, a primitiva, a humana, cedeu lugar à segunda, no caso, os elogios da tia que se referiam ao posto de alferes. Não ao homem.

Jacobina, em isolamento, quase enlouqueceu. Passou dias sem se mirar num espelho, obra rica e magnífica que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples, que a tia lhe cedeu para o quarto, em sua deferência. No espelho, de olhadas furtivas, só extraía linhas difusas da própria imagem e decomposição de contornos, até que teve a ideia de vestir sua farda de alferes. Ao levantar os olhos defronte do espelho, assim vestido reencontrou sua alma que, no caso, era só a exterior.

A história de Jacobina nos induz à reflexão nesta época, em que estamos isolados em quarentena, em meio ao maior desafio socioambiental de nossa curta existência.

No recolhimento a que todos estamos obrigados, correndo de um inimigo invisível – o coronavirus – há pelo menos um mês, temos passado por todos os ciclos relatados por Jacobina, que a leitura atenta e integral do conto de Machado nos evoca. Não lhes relato, todos, para não roubar de leitores interessados a genialidade do escritor, que jamais pensei substituir, contando esta história.

Mas há uma diferença!

Ao invés de ficarmos de um lado para outro, olhando no espelho só de vez em quando, sem saber o quê fazer, confreiras e confrades de nossa APDT-Academia Paulista de Direito do Trabalho têm mostrado seu valor, na edição de artigos e produção de lives (ah! língua inglesa que veio para ficar), material decorrente de muito estudo e prática do Direito do Trabalho, objetivos da Academia.

Felicito, assim, nossos acadêmicos e todos aqueles que, mesmo durante dias difíceis, se predispõem a doar seu tempo, produzindo bons trabalhos no âmbito de suas atuações profissionais. Podem encerrar suas atividades, a cada dia, com coragem de olhar no espelho, ali encontrando suas duas almas. De preferência, a humana, melhor metade da existência.

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Regina Duarte é Presidente da Academia Paulista de Direito do Trabalho (APDT) e Desembargadora Federal do Trabalho.

[1] Assis, Machado de, “Os Melhores Contos- O Espelho (esboço de uma nova teoria da alma humana)”

Seleção de Domício Proença Filho, Global Editora, 1986, 7ª ed. p. 31/40



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Os artigos assinados e notícias reproduzidas com respectivas fontes não representam posições da Academia Paulista de Direito do Trabalho, refletindo a diversidade de visões relevantes abrangidas pelo tema e pela APDT.

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